São Luís, 12 de agosto de 2020
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“Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita: solidariedade e oportunismo em tempos de crise”

Blog Minuto Barra, o Portal de Notícias do Gildásio Brito 

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Por Marinete Moura:

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Os primeiros grupos humanos dos quais fazemos partes, quando crianças, nos legam muito do que levamos por toda nossa existência. A família, a Igreja, a escola, a vizinhançaEsses grupos/Instituições nos fazem, de alguma forma, subir degraus na escada do processo de socialização, deixa-nos o ensinamento de como conviver com nossos semelhantes. Esses ensinamentos são extremamente importantes, afinal, são muitas as diferenças entre nós e as pessoas com quem convivemos ecompartilhamos nossas vidas (direta ou indiretamente) e, como disse Mário Quintana, “a arte de viver é simplesmente a arte de conviver”.

Essa arte de conviver não é nada fácil. Humanos, demasiadamente humanos – como bem o dissera o grande filósofo Nietzsche – imperfeitos, como somos, precisamos exercitar todos os dias essa competência. Assim, compartilhar nossa vida com familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e demais pessoas que entram e saem do nosso convívio a todo momento nos traz a necessidade de mobilizar os aprendizados que acumulamos pelo contato com os pais, professores, amigos, nas comunidades religiosas que frequentamos.

O leitor talvez já tenha concluído que aqui pretendemos falar de valores. A nossa sociedade deve muito de seu conjunto de padrões aos princípios das doutrinas judaico-cristã-aristotélicas, que se constituem como base para esse modelo civilizacional que conhecemos. Contudo, refletindo com as lições de Cristo, é preciso lembrar que – não obstante os preconceitos que os indivíduos têm com as religiões alheias – os valores cultivados na espiritualidade, independente de crenças, devem elevar os que creem e praticam seus credos.

Pensando nisso, não é difícil verificar que amor ao próximo, solidariedade, compreensão, partilha, humildade, respeito, honra, entre outros, são elementos presentes em qualquer denominação religiosa à qual nos filiemos espiritualmente. E, mais ainda, se refletirmos acerca de como vivemos nossas vidas, notaremos que esses valores são guias dos nossos comportamentos ou entraves de nossa consciência, quando fazemos algo de errado. Inclusive, quando agimos errado, mesmo simulando fazer o certo.

Um grande pensador contemporâneo, o Historiador Leandro Karnal, em uma brilhante explanação sobre o cenário que vivemos, disse outro dia que as guerras, epidemias e catástrofes aceleram os processos históricos, mudam o curso das coisas. Não há como discordar dele. Porém, é possível acrescentar que esses momentos, além de pontos de virada, são muito reveladores do nosso espírito e do espírito dos humanos com que convivemos no nosso dia-a-dia.

Temos visto, de forma preocupante, nesses tempos de crise, a frequência com que nossos patrícios mostram o pior de si. Xenofobia, histeria, ignorância, ganância e oportunismo (inclusive em nossa querida Barra do Corda). Quem precisou comprar álcool 70° ou em gel, máscaras, comida ou artigos de higiene por estes tempos, certamente sabe do que falamos. Primeiro no comportamento de consumo muito exagerado de alguns dos nossos concidadãos. Muitas pessoas têm adquirido estoques enormes de gêneros forçando, em alguns lugares a uma escassez de mercadorias e alta de preços. A solidariedade com os mais necessitados fica em algum lugar escondido no mais profundo de suas mentes.

Neste cenário emergem, a todo instante, pessoas que buscam uma estratégia para capitalizar em cima do desespero e das necessidades alheias. Há os que, criticando o que outrora fizeram, tentam mostrar-se sensíveis aos problemas dos que sofrem sem esboçar uma linha só de propostas objetivas do que poderia ser feito, inclusive, querendo valer-se da ideia do “quanto pior melhor”. Alguns, utilizam a pandemia para tentar negar a responsabilidade pelos desmandos de gestão, imputando à crise a responsabilidade por não efetivar as políticas públicas necessárias ao bem estar da população. Por último, temos aqueles que, neste cenário de pandemia, usam a fome das pessoas, o estado de necessidade de seus compatriotas para mostrar sua “generosidade”, com a intenção de capitalização de votos.

Na Bíblia, lemos que Jesus disse: “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita (Mateus, 6:3). Mas o que se vê é o inverso disto. A cada ação, uma promoção pessoal; toda doação, uma selfie; até seus trabalhos como representantes públicos – que são sua obrigação com o povo, tendo em vista suas funções resultantes de cargos eletivos – são propalados como algo que decorre de sua “bondade”.

Seria, então, a Pandemia COVID19 o apocalipse dos valores humanos? – felizmente, também é possível pensar que não. Se, de um lado, contemplamos, com tristeza e preocupação, o oportunismo e a falta de uma solidariedade sincera, por outrolado, vemos que a humanidade ainda suspira ares de humanidade.

Para fazer justiça, nesta situação que expõe o nosso pior, também vem à tona nosso melhor. É reconfortante (e nos dá esperança) perceber isso, também em nossa cidade. Empresários e comerciantes que têm se preocupado com as normas de segurança de seus funcionários e clientes; buscado formas de manter preços e empregos, além de maneiras para atender às demandas de sua clientela de formas diversas, sendo fundamentais nesse momento de resistência à crise, assim como serão na fase de nossa “reconstrução”.

Associações de bairros, igrejas e pessoas que fazem trabalhos voluntários têm se dedicado a ajudar – de forma contínua e, na maioria das vezes, de forma anônima – comunidades e famílias que têm enfrentado grandes dificuldades, agraciadas em razão da crise provocada pelo COVID19. Não fazem as constrangedoras selfies, tampouco se promovem nas redes sociais. Ajudam pelo dever que sentem ter em ajudar. Em muitas oportunidades, partilham do (pouco) que é seu com quem nada tem, oferecem de seu tempo, de sua força de trabalho e, não é exagero dizer, que neste momento de pandemia, põem suas vidas em risco em favor das outras pessoas.

Para outro exemplo, em Barra do Corda, os artistas locais, que em “tempos normais” tanto animam as noites cordinas, mesmo vivendo dificuldades em razão de não poderem exercer seu trabalho, têm realizado lives nas quais captam doações de alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal, ou mesmo valores que são revertidos em prol de comunidades muito necessitadas do nosso município.

Anonimamente, há muitas pessoas que, de maneira corajosa e abnegada, vêm trabalhando pela população cordina. Revelando profundo sentimento cristão, com solidariedade e amor ao próximo, fazem a sua parte nesse mutirão do bem.Esses indivíduos não têm ido à caça aos holofotes e parecem estar, verdadeiramente, imbuídos de um espírito de compromisso com o outro, de consciência de seu papel perante à comunidade.

Barra do Corda deve ter orgulho das pessoas que são assim. Essas, de verdade, revelam a nobreza de seus atos, genuinamente plenos da verdadeira humildade, preocupação com os semelhantes e sem vaidades ou interesses pessoais. Deveriam ser exemplos seguidos pelas demais autoridades políticas e por aqueles que pretendem ingressar neste universo. Estamos vivendo uma crise de saúde, porém, não poderíamos jamais esquecer os valores que mantém em nós a condição humana. Tenhamos, nós também, nestes exemplos solidariedade,sem querer tirar nenhum proveito, a inspiração para superar esta crise. Assim venceremos!

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